No alvorecer da vida. Parte I. Postagem 2. Elizavieta Vodovozova. Tradução: Denise Sales

Parte I

A vida em um fim de mundo provinciano

antes da abolição do estatuto da servidão

  

CAPÍTULO I

O encontro inesperado na estação e esponsais. – Meu avô e sua esposa. – A deportação para o exílio. – O casamento de minha mãe[1]

  

Minha mãe, de sobrenome de solteira Gonietskaia, casou-se muito cedo. Eis o que ela nos contou a esse respeito quando já éramos adultos.

Depois de concluir o curso no Instituto Ekaterinski de São Petersburgo, na primavera de 1828, sendo então uma moça de dezesseis anos, ela voltava com o pai para a propriedade da família, no povoado de Bukhonovo, condado de Porietski, na província de Smolenski. Ao se aproximarem de uma estação da posta, perto do destino final, encontraram um senhor de uns 37 anos de idade, também recém-chegado. Os dois viajantes, ou seja, meu avô (pai da minha mãe) e esse senhor, que se apresentou como Nikolai Grigorievitch Tsievlosvki, puseram-se logo a conversar. Descobriram que eram naturais da mesma província, de Smolenski. Além disso, vovô conhecia muito bem os pais de Nikolai Grigorievitch, frequentara a casa deles quando o filho do casal ainda era criança. Depois disso, muita água rolara: no momento do reencontro, meu avó era um velho, enquanto Nikolai Grigorievitch apenas acabara de deixar o serviço militar e dirigia-se a sua propriedade de Pogoreloe, localizada nas proximidades de Bukhonovo.

Não só naquele tempo distante do qual estou falando, mas ainda muito recentemente, quando conterrâneos da província de Smolenski se encontravam, sempre se perguntavam se não estariam unidos por algum laço de sangue. No final das contas, geralmente acontecia de serem realmente parentes, mesmo que distantes.

– Permita-me, – diz um deles – será que entre nós não há algum grau de parentesco? Por acaso o senhor não conheceu Anna Petrovna Skariatina, prima de segundo grau da minha esposa?

– Deus meu! – responde-lhe o outro, agitado e feliz –, somos realmente parentes! Skariatina é prima de terceiro grau de um sobrinho meu de segundo grau.

            Assim aconteceu também no caso do vovô e de Nikolai Grigorievitch: apenas depois desses cálculos e recálculos de parentesco é que passaram a outros temas. 

            Os dois homens conversaram bastante, tomaram chá a não mais poder e então vovô manifestou o desejo de “dar um cochilo”. Mamãe, uma ginasiana tímida feito um bicho do mato, receosa de ficar sozinha com um desconhecido, com quem ela não trocara nenhuma palavra durante o chá, passou a mão em um pedaço de pão e dirigiu-se à varanda para alimentar as galinhas. Atrás dela logo seguiu também o jovem proprietário.

“Senhor meu Deus!” – contava ela. – “Quanto tempo se passou desde então, mas eu me lembro de tudo o que foi dito entre nós, me lembro de cada palavra de Nikolai Grigorievitch, de cada gesto seu, exatamente como se tivesse acontecido ontem. Ele foi para a varanda e começou a me fazer perguntas. Eu respondia apenas ‘sim’ e ‘não’, mas mesmo isso me saía da garganta à força, enquanto eu continuava a lançar migalhinhas de pão às galinhas, com medo de me mexer, sem coragem de me virar na direção dele – era  assim que saíamos dos institutos, como selvagens ridículas. Acreditem ou não, o acanhamento em sociedade muitas vezes me levava até a perda da consciência, embora eu tivesse uma natureza muito animada e até mesmo desenvolta.”

– Mas o que é isso, mademoiselle Alexandrine, por que está se escondendo de mim? Não vê que aqui não há colegas suas de instituto! Diga alguma coisa! Vejamos... a senhorita gosta de dançar? Ou não?

– Sim, muito – respondi, sem me voltar.

            – Ah, pobre menina, pobre menina! Pois sua propriedade, Bukhonovo, é uma verdadeira toca de urso! Raramente alguém põe os pés lá! Será muito difícil uma oportunidade de dançar! Naquela região não há jovens educados. Os proprietários e suas esposas falam de um jeito caipira, e seus filhinhos correm com castores pelo campo. E dançam (isso quando dançam!) pior do que os ursos que eles próprios caçam... É constrangedor! Imagine quanto a senhorita vai se destacar no meio de toda essa sociedade! Como uma rosa lançada entre cardos!

Gostei muito daquelas palavras. Pensei: na verdade é um poeta, vou pedir que recite versinhos, pode ser até que ele escreva poesia... Mas como?! Era a  primeira vez na vida que eu conversava com um estranho! E assim fiquei parada como um toco de pau, continuei a lançar migalhas às galinhas e pensava, aterrorizada: quando o pão acabar, onde é que eu vou meter minhas mãos?

– Ah, pare de alimentar galinhas! Essa ocupação não lhe serve! Ah, eu lhe direi um segredo... Mas não sei se posso confiar! Pode ser que dê com a língua nos dentes, conte ao papai... Eh, não sei... Será que a senhorita sabe guardar segredo?

Isso imediatamente me tocou fundo – virei-me para ele e disse: “Se o senhor me considera uma “futriqueira”, então não temos motivo para conversar!”

   – “Futriqueira”! Rá, rá, rá... Rá, rá, rá... – gargalhou ele. – O que isso significa? Será que no instituto vocês chamam assim as pessoas que não conseguem ficar caladas?

– Que nada, que nada! Isso é muito pior! De futriqueira chamamos as moças sem caráter, que denunciam as amigas ao chefe ou não são capazes de guardar segredos importantes... Mas eu nunca (está entendendo?), nunca, em toda a minha vida, nunca entreguei segredo algum! – Ele foi tocar em um assunto do instituto, e então eu até esqueci a minha timidez e comecei a cricrilar como uma tagarela. – Será que o senhor entende – continuei – como é difícil não espalhar um segredo, quando as amigas sabem que foi a você que contaram? Pois elas simplesmente não dão sossego, imploram que a gente diga pelo menos a primeira letra do tema do segredo! A outra se nega a fazer isso, continua negando até que, no final, diz a primeira letra, e dela, aos pouquinhos, com charadas e espertezas, arrancam todo o resto. Mas comigo, graças a Deus, isso nunca aconteceu... Eu, em toda a minha vida, nunca contei um segredo!

– Eu acredito, eu acredito! E para lhe mostrar que não a considero uma pessoa futriqueira, nem desonesta, entregarei à senhorita o meu segredo...

Embora ele dissesse tudo com brincadeiras e rodeios, com gargalhadas e sorrisos, zombando da minha ingenuidade de ginasiana (isso eu compreendi muito mais tarde, naquela época eu era completamente estúpida), me pareceu que ele conversava comigo com muita seriedade e as suas piadas eu creditava ao fato de que um homem da sociedade deve conversar assim com uma jovem

– Eis em que consiste o meu segredo: uma vez que a senhorita gosta de dançar, mas no seu fim de mundo isso nunca será possível, eu pensei em promover um baile para a senhorita... Entende? Um baile de verdade, magnífico! Nesse baile vai tocar uma orquestra musical extraordinária... Serão convidados dançarinos de verdade – cavalheiros com esporas... Não apenas as damas estarão cheias de flores, mas também as paredes das salas e os instrumentos musicais serão adornados com elas!... E, em meio a essas flores, em meio às mais belas mulheres e jovens de toda a nossa província, a senhorita será a rainha do baile, a flor mais bela, o melhor adorno! E eu, diante da senhorita... de joelhos, com o violão nas mãos, celebrarei seus encantos, sua divina beleza que, como uma rosa magnífica, floresce em nosso fim de mundo!... Veja só, produzirei tudo isso para a senhorita, porém com uma condição.

– Qual condição? Diga! Diga, por favor! – Eu ouvia com tal enlevo todos os elogios que ele me fazia e ele tanto me provocou com aquele baile iminente que fiquei extremamente contrariada quando ele parou de repente.

Então ele olha para mim e sorri, mas não continua. E eu lhe digo:

– Se o senhor realmente fizer para mim um baile desses, então, de antemão, concordo com todas as suas condições...

– Veja só qual é o problema: eu não posso simplesmente chegar à casa de seus pais e dizer: “Eu quero dar um baile para sua filha”. A senhorita compreende que ninguém pode se comportar deste modo... Os seus pais poderiam tomar essa proposta como uma ofensa pessoal, poderiam simplesmente me colocar para fora da casa deles com um grande escândalo.

– Se não é possível fazer um baile desses – interrompi eu, enrubescendo de descontentamento, – para que o senhor exaltou tanto tudo isso? Quer dizer que queria apenas zombar de mim?

– Deus meu! O que a senhorita está dizendo? Eu respeito demais a senhorita para zombar. Não se ofenda por antecipação... Eu quis apenas explicar à senhorita que não é possível falar sobre o baile com os seus pais desse modo... Mas eu tenho uma ideia para ainda assim fazermos o baile... Não sei se a senhorita vai concordar... Como dizer isso... Temo que novamente a senhorita se ofenda.

– Dou a minha palavra, não me ofenderei, mas fale logo, não me torture! – Nesse momento, com muita, muita ousadia, comecei a conversar como se ele fosse uma das minhas amigas do instituto.

– A questão é a seguinte... Entretanto, sabe de uma coisa, mademoiselle Alexandrine... é difícil para mim lhe dizer isso! Tenho muito medo de que... Garanto... Bem, seja como for! Ouça... Eu vou à sua casa... quer dizer, daqui uma semaninha ou outra, o seu pai provavelmente vai me convidar. Visitarei vocês algumas vezes, e depois... depois... peço a sua mão... pedirei a seu pai permissão para me casar com você... E então, no nosso casamento, terei a chance de dar um baile sensacional. Farei um baile, um baile tão maravilhoso... basta a senhorita concordar em ser minha esposa...

– E então o senhor dará mesmo, dará mesmo esse baile sensacional?

– Se você souber guardar segredo, então eu saberei manter minha palavra... Nesse caso, considerarei manter minha palavra como a mais sagrada e agradável obrigação.

E, de repente, como uma tola, eu comecei a bater palmas, pular, gargalhar... E ele, no primeiro minuto, provavelmente nem conseguiu percebeu que eram as tolices do instituto que jorravam de todos os meus poros, e se constrangeu de todo por causa da minha gargalhada, pensou que eu zombava de sua proposta intempestiva e perguntou:

– Por que a senhorita está rindo? Por que recebeu a minha proposta de modo tão estranho?

– Pois não é que as “nossas”, quer dizer, as minhas colegas de instituto, fracassaram completamente em suas profecias? Veja bem... Em todas as nossas turmas, as amigas decidiam, em comum acordo, quem era a primeira, a segunda etc. em beleza. Eu aparecia apenas no nono lugar. E elas tinham certeza de que a primeira em beleza se casaria antes das outras; depois seria a segunda e assim por diante, consequentemente eu deveria ser a nona a me casar, mas, de repente, sou a primeira.

 

[1] Muitos personagens de minhas “Memórias” são chamados por pseudônimos; foram modificados também os nomes de lugares. (Nota da autora)