Svetlana Aleksievitch: historiadora de almas

A vencedora do Nobel de Literatura 2015 explica assim a própria obra: “A minha crônica abarca dezenas de gerações. Começa com relatos de quem se lembrava da revolução, da primeira e segunda guerras, dos campos stalinistas... e termina em nossos dias – são quase cem anos. É uma história da alma, da alma russa. Ou, mais precisamente, uma história da alma russo-soviética.” 

Antes do anúncio do Nobel de Literatura 2015, eu não conhecia Svetlana Aleksievitch. Recebi a notícia da premiação de manhã, em sala de aula, quando os alunos tocaram no assunto. Quis saber mais, é claro, e encontrei Svetlana por ela mesma, na primeira página do site da escritora (http://www.alexievich.info/index.html). Dali tirei o trecho que acabei de traduzir para a citação do início desta postagem.

Quis dar uma olhada também nos jornais russos: qual seria a abordagem das matérias? Algumas manchetes são parecidas com as nossas, dentro dos padrões do jornalismo mundial: “Prêmio Nobel de Literatura concedido a Svetlana Aleksievitch”, “Svetlana Aleksievitch recebe prêmio Nobel de Literatura”, “Prêmio Nobel de 2015 no campo da literatura concedido a Svetlana Aleksievitch”. Outras destacam, já no título, o principal enfoque local – Svetlana escreve em russo. “O Nobel fala russo” é uma delas. E então esse tema se desdobra em matérias afins, como a lista de prêmios concedidos a obras em russo. Surgem daí quadros com fotos e informações sobre Ivan Búnin (1870-1953), premiado em 1933; Boris Pasternak (1890-1960), em 1958; Mikhail Cholokhov (1905-1984), em 1965; e Aleksandr Soljenítsin (1918-2008), em 1970.

Quis conhecer um pouco mais sobre a vida pessoal da escritora e passei à biografia apresentada no site. “Nasceu em 1948, na cidade de Ivano-Frankovsk (Ucrânia).” Onde é que fica essa cidadezinha? Na parte oeste, mais próxima das fronteiras com a Eslováquia, Hungria, Romênia e Polônia. E não é exatamente uma “cidadezinha”. Duzentos e trinta mil habitantes, centro cultural e econômico do oeste da Ucrânia. Foi fundada em 1662, como cidade-fortaleza, pertenceu ao Império Austríaco, à Polônia e, na década de 1940, fazia parte da União Soviética.

Em 1967, Svetlana Aleksievitch ingressou na Faculdade de Jornalismo da Universidade Estatal da Bielorrússia, em Minsk. Bem... Minsk é mais conhecida dos brasileiros, às vezes aparece no noticiário da tevê. É a capital da Bielorrússia, país que faz fronteira com a Rússia, Letônia, Lituânia, Polônia e Ucrânia. Na década de 1960, também integrava a URSS.

No site oficial da atual Bielorrússia, a notícia do prêmio Nobel de Literatura está na primeira página, na seção de imprensa (http://www.belarus.by/ru). As informações podem ser lidas em inglês, russo e bielorrusso; as duas últimas são as línguas oficiais. No Cazaquistão, ex-república soviética, o russo também é língua oficial, juntamente com o cazaque.

Tantas perguntas ainda sobre Svetlana – obra, entrevistas, opiniões, estilo de vida... E outras tantas sobre assuntos que surgem à mente quando a mídia nos faz lembrar de um lugar distante – por que conhecemos tão pouco a literatura contemporânea escrita em russo? E não só em russo. Em bielorrusso, em cazaque, em ucraniano, em georgiano...

Ficam todas para uma próxima vez...