Sobre o incêndio no Museu Nacional

Eu soube da existência do Museu Nacional pela primeira vez através dos textos antropológicos. Durante o segundo semestre de 2008, enquanto fazia mestrado no CPDA/UFRRJ, frequentei uma vez por semana a Quinta da Boa Vista para aulas no PPGAS/UFRJ como aluno especial. 

O deslocamento da região central da cidade do Rio de Janeiro para o bairro de São Cristóvão foi sempre permeado por desafios. Desvelava-se a meus olhos a brutal desigualdade social pelas cores da cidade: a medida que avançava para o norte o cinza predominava. 

Estas viagens semanais viriam a constituir o momento chave para, nos termos de Roy Wagner, buscar me converter em antropólogo nos anos que se seguiram. Antes de empreender estas peregrinações semanais do Bairro de Fátima para São Cristóvão, o Museu se apresentava como um lugar impenetrável para mim.

Alguns amigos que, me viam com jeito de antropólogo, estimularam esta descoberta. Qual não foi a surpresa ao adentrar o Jardim que dava na sala de aula e na biblioteca e encontrar uma referência que levarei para sempre: o rigor e o afeto do professor Moacir Palmeira. Não menos do que isso também encontrei entre os estudantes.

A vida no Rio de Janeiro foi marcada por um encontro com a história do país. Nas suas calçadas, becos, ruas, pedras e prédios eu encontrava os marcos de uma história que não chegam a muitos lugares. Dentre eles, as terras onde eu cresci no interior de Santa Catarina. O atual oeste catarinense foi esquadrinhado por empresas colonizadoras que, formaram as pequenas propriedades rurais comercializadas a colonos que migravam do Rio Grande do Sul. 

Porém, os massacres e as expropriações a que foram submetidas as populações que viviam naquelas terras não estão adequadamente presentes na memória local. Anos antes de morar no Rio de Janeiro, visitei o local onde aconteceu um verdadeiro massacre de rebeldes pelas forças do governo na redução de Taquaruçu, durante a chamada Guerra do Contestado. 

Só então dei-me conta de certos aspectos da história que ignorava. Como se sabe, ignorá-la nos impede de fazê-la. A negação e o apagamento destes e de outros acontecimentos da nossa história ganham novos contornos com o incêndio do Museu Nacional. Estamos sendo privados de nos apropriarmos de conhecimentos que nem imaginamos existirem.

Eu, por exemplo, não imaginava entender melhor minha história familiar quando adentrei nos jardins do Museu como aluno especial. Fui descobrir isso quando voltei para a terra onde meus pais vivem até hoje para a festa de Ano Novo da minha família paterna. Naquele dia, como todos os anos, a família se reuniu para dar as boas vindas ao ano que se iniciava.

A certa altura, ao redor da minha avó, meu pai e seus irmãos cantavam músicas em italiano. Eu havia assistido mais de uma vez aquela cena, mas dessa vez minhas lágrimas chocaram os presentes: tios, tias, primos, primas, irmãos, pais e amigos. Ninguém entendeu porque caí no choro. Eu também não soube explicar. 

Apenas relembrava imagens de um semestre inteiro de aulas com Moacir Palmeira no Museu Nacional. O curso era Sociedades Camponesas e eu o via resumido a minha frente. Era minha avó que, pariu e criou onze filhos naquele pedaço de terra. Era meu pai e minha mãe que ali me criaram. Eram meus tios que ali retornavam. 

Ali eu materializava todos os temas do curso de Moacir: família, economia, visões de mundo, etc. O conceito de part society de Robert Redfield, a honra nas sociedades mediterrâneas, a casa Cabília, entre outros textos e discussões fizeram daquele Ano Novo algo diferente. Eu trazia do Rio de Janeiro algo que nunca mais esqueceria: dois semestres de formação intensa durante o mestrado no CPDA/UFRRJ. Aquele curso no Museu foi decisivo para um ano depois fazer minha inscrição na seleção para o curso de Doutorado no PPGAS/UFRGS. 

As imagens que mostravam um Museu Nacional em chamas me fizeram derramar lágrimas novamente. No entanto, agora elas caíram pela biblioteca magnífica do PPGAS/UFRJ, suas salas e corredores que frequentei por um semestre e estavam desaparecendo. Lágrimas pela imensurável perda para a educação, a ciência, a cultura e a história nacionais. Ouvi e li sobre objetos de coleções de diversos materiais; sobre memórias, histórias, fatos e eventos; o descaso e abandono de nossas instituições públicas. 

Na manhã seguinte entrei em sala de aula com um texto de Georg Simmel, publicado em 1960 em coletânea organizada por Otávio Velho, professor do Museu Nacional aposentado. Meus alunos ouviram e vão continuar ouvindo sobre esta instituição, seus mestres e obras. 

Felpe José Comunello, 07/09/2018.